A proibição de mostrar o consumo de tabaco em peças publicitárias no metrô de Paris motivou a retirada de um cartaz do filme "Gainsbourg (vie héroïque)", sobre a vida do cantor Serge Gainsbourg.
No cartaz do filme de Joann Sfar, o ator Eric Elmosnino aparece soltando fumaça pela boca.
A simples citação ao ato de fumar foi suficiente para que o cartaz fosse considerado uma incitação ao consumo de tabaco pelos administradores do metrô, que temem receber uma multa de até 100 mil euros.
"Isso porque nos preocupamos em fazer com que não aparecesse nenhum cigarro no cartaz", afirma o produtor do filme, Marc du Pontavice, para quem a proibição da publicidade no metrô, onde 600 cartazes seriam colocados a partir de dezembro, provocará um "grande prejuízo".
O produtor disse considerar a medida "ridícula, ainda mais levando em conta que o cartaz será permitido nos ônibus urbanos da cidade".
Já em 2009, um dos cartazes que anunciavam uma exposição sobre o cineasta Jacques Tati teve que mudar para aparecer no metrô parisiense. O cachimbo fumado por seu personagem Monsieur Hulot foi substituído por um cata-vento.
O cartaz do filme "Coco antes de Chanel", sobre Coco Chanel, também foi retirado porque sua protagonista, Audrey Tautou, segurava um cigarro.
Outros dois dedos e um dente foram encontrados por colecionador. Eles serão exibidos ao público ano que vem.
Foto divulgada nesta sexta-feira (20) mostra um dedo da mão direita de Galileu Galilei. O dedo foi removido em 1737 do cadáver do astrônomo, quando estava sendo trasladado para a tumba da Basílica de Santa Croce. Também foi anunciado hoje que outros dois dedos e um dente, considerados perdidos por mais de um século, foram localizados por acaso por um colecionador e serão exibidos ao público pela primeira vez na primavera de 2010 (Hemisfério Norte) na reabertura do Instituto e Museu de História da Ciência de Firenze, na Itália.
Dedo do astrônomo julgado pela Igreja por afirmar que a Terra orbitava o Sol foi removido em 1737 (foto: AFP/Catola and Partners Media)
O presente artigo procura causar a reflexão acerca do sentido da arte em um mundo fragmentado, instável e fluido e sobre a necessidade de se criar um vocabulário compartilhado para leitura das imagens. A vida tornou-se episódica e tudo é feito para se obter máximo impacto e obsolescência instantânea. Ainda há lugar para aquela arte que atravessava o tempo e imortalizava o seu autor?
Palavras-chave: arte, mundo contemporâneo, leitura de imagens, comunicação de massa, mídia, tecnologias
1- O mundo onde vivemos
O mundo pós-moderno ou contemporâneo é caracterizado pela sua fragmentação e instabilidade, a modernidade líquida, para utilizar a metáfora de Bauman (Modernidade Líquida, 2001). O enfraquecimento de instituições como família e religião e a grande competição no ambiente de trabalho cria uma sociedade cada vez mais individualista. O consumo é incentivado a todo o momento e diariamente somos bombardeados com centenas de imagens, despejadas pelos mais diversos meios de comunicação. O novo é exaltado e valorizado, ainda que a novidade dure apenas algumas horas e seja substituída pelo mais novo “novo”.
As imagens são produzidas em profusão e da mesma forma são disponibilizadas, ou melhor, disseminadas. Celulares gravam vídeos, câmeras digitais tiram milhares de fotos, em qualquer lugar você pode se conectar para divulgar suas imagens, atualizar seus blogs, microblogs e perfis de redes sociais. Jogos simulam vidas paralelas e através de um console de vídeo game você pode até se tornar um astro do rock. Celebridades são produzidas aos montes através dos eality shows, e anúncios dos mais variados produtos estão ao nosso redor, em alguns casos onde menos poderíamos imaginar.
Em um mundo fluído, onde a mudança é a palavra de ordem, a atenção do público é disputada pelos mais diversos meios, as opções são múltiplas, porém o tempo de permanência em cada uma delas é efêmero, qual o sentido da arte na sociedade contemporânea?
2- As várias artes
Segundo E.H. Gombrich (A História da Arte, 2008):
“Nada existe realmente a que se possa dar o nome Arte. Existem somente artistas. Outrora, eram homens que apanhavam um punhado de terra colorida e com ela modelavam toscamente as formas de um bisão na parede de uma caverna; hoje alguns compram suas tintas e desenham cartazes para tapumes; eles faziam e fazem muitas coisas. Não prejudica ninguém dar o nome arte a todas essas atividades”.
Se existe algo que possa nos distinguir dos outros animais, algo que possa nos tornar humanos, acredito que seja a nossa capacidade de produzir cultura. Em todas as suas possíveis manifestações, desde os primeiros fabricantes de instrumentos há cerca de dois milhões de anos, os primeiros da linhagem Homo, até o lançamento do game The Beatles Rock Band, atravessando toda a evolução do pensamento, das ciências, da organização da sociedade, da religião e das artes, sem a nossa complexidade não seríamos mais que uma espécie de grandes símios.
A tentativa de se definir a arte sempre causou muita polêmica e controvérsia, principalmente nos dias atuais, um mundo fluido onde fronteiras que separam o que é arte daquilo que não é mudam com a mesma velocidade com que a autoridade responsável por essa classificação transita de mão em mão. Hoje as pinturas encontradas em Altamira e Lascaux são consideradas arte, mas os homens que as produziram não as conceberam com essa intenção, uma parede grafitada por Banksy é leiloada por mais de US$ 400 mil enquanto uma pichadora é presa por atacar o “andar vazio” da Bienal como forma de protesto.
Isso sem contar a infinidade de artistas produzidos em programas de televisão: atores, atrizes, músicos em geral e várias outras categorias. Nunca os famosos quinze minutos de fama de Andy Warhol foram tão avidamente perseguidos por centenas de aspirantes a celebridade do mundo inteiro. É claro que coisas boas acabam por surgir, mas a maioria não possui fôlego para agüentar por muito tempo, ou seja, até a próxima edição do programa. Como já nos alertara Debord (A sociedade do espetáculo, 2008) “o espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem”, e hoje o capital se concretiza na imagem e todos querem fazer parte dele. A fama cedeu lugar à notoriedade. Com tantas possibilidades, como podemos diferenciar o que é arte e o que não é?
3- Um mundo repleto de estímulos
Segundo informações do livro “An Introduction to Visual Culture” (An Introduction to Visual Culture, 2009), existem mais de 100 milhões de vídeos no YouTube e mais de 3 bilhões de fotos no site Flickr, recentemente o Facebook anunciou no seu blog oficial que ultrapassou a marca dos 300 milhões de usuários. Poderia até soar irônico, mas com essa quantidade crescente de informação que é pulverizada a cada minuto nos meios de comunicação torna-se uma tarefa cada vez mais hercúlea fazer-se ver ou ouvir.
A sensação de liberdade de escolha e a flexibilidade proporcionada por um mundo onde as mudanças acontecem a todo o momento, e onde, para não se tornar um excluído, é preciso estar sempre atento às novas tendências e sempre em movimento, buscando um lugar que possa proporcionar o mínimo de segurança, fez surgir um sujeito fragmentado que está constantemente buscando a identidade que lhe foi subtraída, nas palavras de Bauman (Modernidade Líquida, 2001) “a busca da identidade é a busca incessante de deter ou tornar mais lento o fluxo, de solidificar o fluído, de dar forma ao disforme”.
Essa busca é realizada em meios especializados em moda, comportamento, nas novelas e programas de variedades. Comunidades virtuais são criadas para acolher e dar o tão sonhado sentimento de pertença ao indivíduo, mas ele só irá permanecer enquanto a sua escolha for in, logo surgirá algo mais cool e o ciclo recomeçará. Em meio a tantos estímulos, em um mundo cuja vida tornou-se episódica, um “tempo pontilhista”, nas palavras de Michel Maffesoli, ainda há espaço para aquela arte cuja aspiração era sobreviver ao tempo e imortalizar o seu autor? Caso ainda exista, como ela pode ser reconhecida? Caso contrário, o que é arte no mundo contemporâneo?
4- Breve panorama da arte
Desde a Grécia antiga, onde os primeiros artistas não eram vistos com bons olhos, afinal eles tinham que trabalhar para viver, até os dias atuais onde aqueles que encontram o seu lugar ao sol conseguem ter o seu trabalho reconhecido e também valorizado pelo mercado, a arte foi e é empregada para os mais diversos fins:
·Na religião como objeto de culto, presente em rituais e celebrações;
·Registro e documentação dos mais diversos assuntos;
·Experimentos e estudos físicos, fisiológicos, antropológicos e psíquicos;
·Ornamentos e decoração;
·Expressão de sentimentos, poder, idéias e desejos;
·Diferenciação;
·Crítica social, econômica e política;
·Investimento financeiro.
Conservadora ou progressista, clássica ou experimental, alguns fins ainda permanecem, mas a forma de se produzir e consumir arte sofreu uma grande modificação ao longo dos anos. Novos materiais, novas tecnologias e, principalmente, novas maneiras de atingir o público, seja pela admiração causada pela beleza, pela repulsa causada pelo grotesco ou pelo estranhamento causado pela novidade. Os mais diversos meios são utilizados para comunicar, expor idéias e interagir com o expectador. Hoje a arte está presente nas estações do metrô, mas principais vias de circulação espalhadas pela cidade, nos iPod´s e nos telefones celulares.
Museus e galerias, para chamar a atenção do público, precisam investir constantemente em novos formatos de exposição, de forma a satisfazer um público com um ritmo de vida frenético, marcado pela velocidade e a necessidade de interação com a obra. Em um mundo repleto de sensações ver já não é o suficiente, é preciso tocar, ouvir, cheirar e até manipular a obra de arte. As possibilidades são abundantes, mas o público está realmente apto a experimentar a arte?
5- Vocabulário compartilhado e funções do artista
Como nos informa Edward T. Hall (A Dimensão Oculta, 2005), “dos sentidos a visão foi o último a evoluir e é de longe o mais complexo”. Ainda segundo Hall “uma peça essencial na construção do entendimento humano é o reconhecimento de que o homem em determinados momentos críticos sintetiza a experiência. Em outras palavras, ele aprende enquanto vê, e o que ele aprende influencia o que vê”.
Em um mundo povoado por tantos estímulos visuais é no mínimo estranho que as pessoas não sejam capazes de ver, ou melhor, de compreender uma imagem. É necessária a criação e difusão de um vocabulário compartilhado, como citou Alberto Manguel (Lendo Imagens, 2006), para a leitura e entendimento das imagens. Mais do que produzir em profusão, precisamos incentivar a sua leitura, fazer com que as pessoas extraiam delas mais do que o simples prazer visual, procurem o conhecimento e tenham condições de identificar a relevância de uma obra.
Para Eric Hobsbawm (Era dos Extremos, 2006) “a novidade era que a tecnologia encharcara de arte a vida diária privada e pública. Jamais fora tão difícil evitar a experiência estética. A ‘obra de arte’ se perdera na enxurrada de palavras, sons, imagens, no ambiente universal do que um dia se teria chamado arte”. A fotografia libertou a pintura do realismo, as vanguardas surgiram trazendo consigo uma nova forma de perceber e representar o mundo e, conseqüentemente, estenderam o leque de tudo o que poderia ser considerado arte. O pós-modernismo, que virou moda na década de 1980, marcado pelo niilismo dessa época, varreu qualquer critério preestabelecido de julgamento e valor nas artes.
Hoje as obras de arte são tratadas, principalmente, como investimentos. E como um investimento está sujeito aos altos e baixos do mercado, segundo publicado na revista Bravo (dez/2008), “o diretor da galeria Fortes Vilaça, Alexandre Gabriel, ressalta que os preços são mais realistas nos períodos de crise. ‘Os critérios para a valorização passam a ser mais rigorosos. O 'hype' dá lugar a uma perspectiva histórica, a uma consideração mais cuidadosa do conteúdo da obra. Isto favorece a qualidade em detrimento da badalação’. Para resumir: Picasso ou Van Gogh jamais perderão o seu valor.
O público precisa aprender a ver, a fazer a leitura das imagens, saber diferenciar as várias mensagens que são enviadas a todo o momento em profusão, mas principalmente precisamos refletir se em uma sociedade onde o tempo é pontilhista e tudo é feito, na expressão de George Steiner, para obter “máximo impacto e obsolescência instantânea”, ainda há lugar para aquela velha arte que atravessa os séculos. Devemos simplesmente nos conformar e ver todo o potencial humano rendido aos caprichos do mercado, ou devemos procurar uma forma de valorizar esse potencial?
Mais do que apresentar respostas, este artigo pretendeu trazer à tona uma reflexão sobre qual o sentido da arte nos dias atuais e a importância de educar o olhar. Termino com mais um trecho de Bauman (Sociedade Individualizada, 2001):
“A nossa é a primeira cultura na história a não premiar a duração e a conseguir fatiar o tempo de vida em séries de episódios vividos com a intenção de protelar suas conseqüências duradouras e evitar compromissos firmes que tornariam tais conseqüências restritivas. A eternidade não importa, a não ser para a experiência instantânea. O ‘longo prazo’ é apenas um pacote de Erlebnisse (Experiências) de curto prazo, receptivo a um incessante embaralhamento e sem uma ordem privilegiada de sucessão. O infinito foi reduzido a uma série de ‘aqui e agora’; a imortalidade, à interminável reciclagem de nascimentos e mortes”.
Culpa, remorso ou apenas uma tentativa de sensibilizar a opinião pública?
Cesare Battisti é escoltado por policiais federais em Brasília em 19 de março de 2007. (Foto: AP)
Cesare Battisti, 18/11/2009 - Foto: AFP
“Ao criar uma imagem ficcional, isto é, ao referir-se à pessoa, a pose permite analisar o retrato fotográfico pelo prisma do artifício, não apenas em termos técnicos, mas também pelo fato de possibilitar a construção de inúmeras máscaras que escamoteiam de vez a existência do sujeito original” (Annateresa Fabris).
Compare as duas fotos e tire as suas conclusões. A decisão final está nas mãos do presidente Lula.
É revelar aquilo que se esconde diante dos olhos. É mostrar para o mundo o mundo que não se vê. É raptar do agora um instante que ficará preservado para a posteridade. É repartir com o outro o quadro que meu olhar selecionou e fazer deste quadro um universo de possibilidades.
Vitral da Igreja Sª: Beatriz da Silva - Chelas (Lisboa)
Passando pelo The Guardian a reportagem “Mirror image?” chamou a minha atenção. Resumidamente trata-se da exposição Points of View: Capturing the 19th Century in Photographs, na British Library, e fala da relação entre religião e fotografia. No texto, Theo Hobson apresenta a seguinte questão: a religião é capaz de fazer um uso positivo da imagem em movimento? E nos dá o exemplo de um site que vende vídeos bíblicos, no melhor estilo hoolywoodiano. Os filmes são dirigidos por David Batty que na introdução de um deles diz que a idéia era criar um vitral do século 21.
Mandamento número 2:
“Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas, nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam, e uso de misericórdia com milhares dos que me amam e guardam os meus mandamentos”.
O Milagre dos Pães e dos Peixes, c. 520 d.C. – Mosaico; basílica de Santo Apolinário, o Novo, Ravena
Quando o Imperador Constantino estabeleceu a Igreja Cristã, no ano de 311 d.C., um dos principais problemas foi: como decorar as basílicas? Foi o papa Gregório Magno, que viveu no século VI, que lembrou àqueles que eram contra qualquer pintura que muitos membros da Igreja não sabiam ler nem escrever, e que, para ensiná-los, essas imagens eram tão úteis quanto os desenhos de um livro ilustrado para crianças. Disse ele: “A pintura pode fazer pelos analfabetos o que a escrita faz para os que sabem ler”. (Gombrich)
E a utilização da imagem foi um dos fatores que motivou as regiões orientais de fala grega a recusarem a liderança do papa latino. Em 754 os iconoclastas ou destruidores de imagens levaram a melhor e toda a arte religiosa foi proibida no lado oriental. Mas seus adversários estavam ainda menos de acordo com as idéias do papa Gregório. Para eles as imagens não eram apenas úteis de um ponto de vista didático – as imagens eram acima de tudo sagradas. (Gombrich)
Nossa Senhora entronizada com o Menino, c. 1280 – Possivelmente pintado em Constantinopla, Galeria Nacional de Arte, Washington, DC
“Se Deus, em Sua misericórdia, pôde revelar-Se aos olhos dos mortais na natureza humana do Cristo, por que não estaria também disposto a manifestar-Se em imagens? Não adoramos essas imagens por si mesmas, como fazem os pagãos. Adoramos Deus e os santos através das imagens ou além delas”. Quando esse partido voltou ao poder, após um século de repressão, as pinturas de igreja não podiam mais ser encaradas como meras ilustrações para uso de analfabetos. Eram consideradas reflexos misteriosos do mundo sobrenatural, e isso foi de enorme importância para a história da arte. (Gombrich)
Cristo Soberano do Universo, a Virgem e Menino, e santos, c. 1190 – Mosaico, catedral de Monreale, Sicília
No texto a questão volta renovada: a religião é capaz de fazer um uso positivo da imagem em movimento? Deixando de lado o problema levantado pelo autor (elenco eurocêntrico), os filmes seriam realmente capazes de aumentar o interesse dos fiéis pela palavra de Deus e funcionariam, de verdade, como os vitrais do século 21? Ou seria mais uma vez o espetáculo, como nos alertou Guy Debord, “cujo caráter fundamentalmente tautológico decorre do simples fato de seus meios serem, ao mesmo tempo, seu fim. É o sol que nunca se põe no império da passividade moderna. Recobre toda a superfície do mundo e está indefinidamente impregnado de sua própria glória”.
É pesquisadora e fotógrafa independente, graduada em propaganda e marketing e pós-graduada em fotografia. Imagens e sociedade são os meus maiores interesses.